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A condenação do Manchester City por graves violações das regras financeiras da Premier League fecha, ao menos provisoriamente, um ciclo iniciado 18 anos antes. A decisão coloca sob uma nova perspectiva praticamente toda a era iniciada com a chegada do Abu Dhabi United Group.
Entre setembro de 2008 e setembro de 2026, o City saiu de um período de instabilidade financeira para se transformar em uma potência mundial. Nesse caminho vieram Robinho, Sergio Agüero, Pep Guardiola, Erling Haaland, títulos nacionais, a primeira Champions League e investimentos bilionários.
Ao mesmo tempo, cresceram os questionamentos sobre patrocínios, Fair Play Financeiro e a origem de determinadas receitas. Documentos vazados deram início a investigações que, anos depois, desembocariam em 115 acusações apresentadas pela Premier League.
A seguir, a cronologia dos principais acontecimentos.
2008 – Abu Dhabi compra o City e contrata Robinho
Em 1º de setembro de 2008, o Abu Dhabi United Group, apoiado por Sheikh Mansour, comprou o Manchester City por aproximadamente 200 milhões de libras, assumindo o controle que pertencia ao ex-primeiro-ministro tailandês Thaksin Shinawatra. Dez anos antes, o clube havia disputado a terceira divisão inglesa. A nova propriedade significava uma mudança radical de dimensão.
Ela ficou evidente já no dia da aquisição. No fechamento da janela de transferências, o City quebrou o recorde britânico ao contratar Robinho, do Real Madrid, por 32,5 milhões de libras. Era o primeiro grande símbolo da nova era.
2009 – Gastos passam de 100 milhões de libras enquanto nasce o FFP
O primeiro ano completo sob a nova propriedade mostrou a dimensão do projeto. Entre julho e agosto de 2009, o Manchester City investiu mais de 100 milhões de libras em reforços como Carlos Tevez, Emmanuel Adebayor e Kolo Touré.
Na mesma época, o conceito de Fair Play Financeiro começava a ganhar forma no futebol europeu. A ideia era impedir que os clubes gastassem continuamente muito mais do que suas próprias receitas permitiam.
Entre o fim de 2009 e o meio de 2010, Roberto Mancini substituiu Mark Hughes. Mais uma vez, o clube ultrapassou 100 milhões de libras em contratações, com nomes como David Silva, Yaya Touré, Edin Dzeko, James Milner e Mario Balotelli.
2011 – Primeiro grande título e acordo milionário com a Etihad
Em maio de 2011, Yaya Touré marcou o gol da vitória por 1 a 0 sobre o Stoke City na final da FA Cup. O City conquistava seu primeiro grande título em 35 anos. Pouco depois, outro episódio passaria a ser observado com atenção. O City of Manchester Stadium foi rebatizado como Etihad Stadium depois de um acordo de dez anos avaliado em 400 milhões de libras com a companhia aérea de Abu Dhabi.
O pacote incluía o patrocínio da camisa e investimentos ligados à região do Etihad Campus. Arsène Wenger questionou publicamente a operação e afirmou que a credibilidade do Fair Play Financeiro estava em jogo. Ian Ayre, então dirigente do Liverpool, também levantou dúvidas sobre a relação entre Etihad, Manchester City e Sheikh Mansour.
O clube rejeitou as críticas e classificou os comentários como infundados. Na mesma janela, Sergio Agüero chegou do Atlético de Madrid por aproximadamente 38 milhões de libras.
2012 – Agüero transforma o City em campeão inglês
A temporada 2011/12 produziu um dos momentos mais famosos da história da Premier League. Primeiro veio o histórico 6 a 1 sobre o Manchester United em Old Trafford. Depois, em maio de 2012, City e United chegaram à última rodada empatados em pontos. O time de Mancini precisava vencer o Queens Park Rangers para garantir o título.
Perdia por 2 a 1 nos acréscimos quando Edin Dzeko empatou. Segundos depois, Agüero marcou o gol do 3 a 2. O City conquistava seu primeiro título inglês em 44 anos e sua primeira Premier League. Quatro anos depois da chegada do capital de Abu Dhabi, o clube já havia investido quase 500 milhões de libras em jogadores, com saldo líquido negativo estimado em aproximadamente 345 milhões de libras.
2013 e 2014 – Novas regras e primeiro grande choque com o Fair Play Financeiro
Em 2013, os clubes da Premier League aprovaram novas regras de controle financeiro. O modelo estabelecia limites para prejuízos acumulados e previa sanções em caso de violações. Dentro de campo, Mancini deixou o cargo e Manuel Pellegrini assumiu.
Na temporada 2013/14, o chileno conduziu o City a mais uma Premier League e também à Copa da Liga. A equipe marcou 156 gols em todas as competições, superando um antigo recorde do Manchester United. Poucos dias depois do título inglês, porém, chegou uma punição da Uefa.
Em maio de 2014, o City aceitou uma multa de 49 milhões de libras, com 32 milhões de libras suspensos, por infrações ao Fair Play Financeiro. O elenco inscrito para a Champions League também foi limitado a 21 jogadores.
2016 – Começa a era Guardiola
Em fevereiro de 2016, o clube confirmou que Pep Guardiola assumiria o comando ao final da temporada. O espanhol deixou o Bayern de Munique para iniciar no Etihad um período que mudaria definitivamente o patamar esportivo do City. Em sua primeira janela chegaram jogadores como Ilkay Gündogan, John Stones, Leroy Sané e Oleksandr Zinchenko. A primeira temporada terminou sem títulos, algo inédito até então na carreira de Guardiola como treinador. O salto viria logo depois.
2017/18 – 250 milhões de libras em reforços e os ‘Centurions’
Para 2017/18, o Manchester City gastou mais de 250 milhões de libras em seis reforços, entre eles Bernardo Silva, Ederson, Kyle Walker, Benjamin Mendy, Danilo e Aymeric Laporte. O resultado foi uma temporada histórica.
Guardiola conquistou seu primeiro troféu pelo clube com a Copa da Liga e depois levou o City ao título da Premier League com 100 pontos, marca inédita na primeira divisão inglesa. Nasciam os “Centurions”. A equipe também estabeleceu uma série de recordes: 32 vitórias, 106 gols, saldo de +79 e 18 vitórias consecutivas.
2018 – Der Spiegel publica documentos que mudam o caso
Em novembro de 2018, a revista alemã “Der Spiegel” publicou documentos obtidos pelo hacker português Rui Pinto. As reportagens acusavam o Manchester City e seus patrocinadores de manipular contratos para contornar as regras financeiras da Uefa.
Uma das principais alegações era que receitas comerciais teriam sido artificialmente infladas e que recursos ligados ao proprietário Sheikh Mansour teriam chegado ao clube através de patrocinadores associados. O City reagiu afirmando que as revelações faziam parte de uma tentativa organizada de prejudicar sua reputação. Mas os documentos publicados pelo “Der Spiegel” se transformariam no ponto de partida de uma longa sequência de investigações.
2019 – Uefa abre investigação
Em maio de 2019, a Uefa abriu uma investigação formal baseada nas informações reveladas pelo “Der Spiegel”. O City contestou a condução do processo. Enquanto isso, dentro de campo, Guardiola comandou outra temporada histórica: o clube conquistou Premier League, FA Cup, Copa da Liga e Community Shield, tornando-se o primeiro time inglês a completar essa coleção de troféus domésticos na mesma campanha. Na Premier League, terminou com 98 pontos, apenas um acima do Liverpool de Jürgen Klopp.
2020 – City é banido da Europa, mas vence no CAS
Em fevereiro de 2020, a Uefa anunciou uma punição pesada. O Manchester City foi banido das competições europeias por duas temporadas e multado em 30 milhões de euros por “graves violações” das regras de licenciamento e Fair Play Financeiro. Cinco meses depois, porém, o Tribunal Arbitral do Esporte mudou completamente o cenário.
O CAS anulou a suspensão europeia e reduziu a multa para 10 milhões de euros. Segundo a decisão, a maior parte das infrações alegadas não havia sido comprovada ou estava prescrita. Para o City, foi uma enorme vitória jurídica.
2021 e 2022 – Mais títulos e chegada de Haaland
Em 2021, Guardiola conquistou sua terceira Premier League pelo City e levou o clube à primeira final de Champions League de sua história, perdida por 1 a 0 para o Chelsea. No ano seguinte, veio outro Campeonato Inglês, novamente decidido de maneira dramática na última rodada, com uma virada por 3 a 2 sobre o Aston Villa.
No verão europeu de 2022, o City contratou Erling Haaland do Borussia Dortmund ao acionar uma cláusula de 51 milhões de libras. O atacante chegou como mais uma peça para levar o projeto ao objetivo que ainda faltava: a Champions League.
2023 – 115 acusações e a tríplice coroa
Em fevereiro de 2023, explodiu o caso que mudaria novamente a relação entre Manchester City e Premier League. Após uma investigação de quatro anos, o clube foi acusado de 115 violações das regras financeiras, relacionadas principalmente ao período entre 2009 e 2018.
As acusações incluíam suposto fornecimento de informações financeiras incorretas sobre receitas de patrocínio, custos operacionais e salários, descumprimentos das regras de Fair Play Financeiro da Uefa e falta de cooperação com a investigação da Premier League. O processo das 115 acusações permaneceria por anos como uma ameaça sem desfecho para o clube. Poucos meses depois, o contraste esportivo não poderia ser maior.
Em junho, o City completou a tríplice coroa, conquistando Premier League, FA Cup e Champions League. Na final europeia, Rodri marcou o gol da vitória por 1 a 0 sobre a Inter, em Istambul. Quinze anos depois da chegada de Abu Dhabi, o Manchester City havia alcançado o topo do futebol europeu.
2024 – Começa a audiência das 115 acusações
Em setembro de 2024, começou oficialmente a audiência envolvendo Manchester City e Premier League. Uma comissão independente formada por três integrantes passou a analisar as acusações. O processo se estendeu por meses e colocou sob análise justamente o período no qual o clube realizou sua transformação esportiva e financeira.
2026 – Guardiola deixa o clube
Em maio de 2026, o Manchester City anunciou o fim da era Guardiola. O catalão deixou o Etihad depois de 593 partidas e 20 troféus, incluindo seis títulos da primeira divisão inglesa. Sua última partida foi uma derrota por 2 a 1 para o Aston Villa.
Enzo Maresca assumiu o comando e começou 2026/27 com cinco vitórias nas cinco primeiras rodadas da Premier League, levando o City à liderança antes da primeira Data Fifa. Naquele momento, porém, o assunto fora de campo estava prestes a superar qualquer resultado esportivo.
Setembro de 2026 – City é condenado
Em 25 de setembro, começaram a circular informações de que o Manchester City havia sido considerado culpado em 114 das 115 acusações apresentadas pela Premier League. Inicialmente, clube e liga não comentaram os vazamentos.
Quatro dias depois, em 29 de setembro, a Premier League confirmou oficialmente que a comissão independente havia considerado o City culpado das acusações relacionadas às violações financeiras graves e da maioria das acusações envolvendo falta de cooperação com a investigação.
Segundo a decisão divulgada pela liga, o City utilizou contratos considerados fictícios para mascarar mais de 900 milhões de libras em financiamento secreto e inflar artificialmente suas receitas entre 2009/10 e 2017/18.
Richard Masters, CEO da Premier League, afirmou que as conclusões mostravam que o Manchester City havia violado sistematicamente as regras da competição durante quase uma década. O clube respondeu dizendo estar “decepcionado e surpreso”, reiterou sua inocência e anunciou que recorrerá da decisão.
A punição ainda não foi definida. Perda de pontos, grandes multas, restrições esportivas e até cenários mais extremos passaram a ser discutidos. O que já está estabelecido é que a decisão alcança diretamente o período no qual o Manchester City passou de clube em reconstrução a uma das maiores potências do futebol mundial.
Da contratação de Robinho em setembro de 2008 ao veredito sobre 114 acusações em setembro de 2026, a era Abu Dhabi transformou a história do City. Mas, pela primeira vez em 18 anos, a trajetória esportiva que levou o clube ao topo e as suspeitas financeiras que acompanharam essa ascensão fazem oficialmente parte da mesma história.