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Há jogadores que chegam para mudar a maneira como uma equipe joga. Rodri seria esse jogador para o Real Madrid. Por isso, o tamanho da lacuna não preenchida é facilmente sentido. O volante, eleito melhor jogador da Copa do Mundo de 2026, rapidamente se tornou uma das peças centrais de um Barcelona que começou LaLiga com sete vitórias em sete partidas e 31 gols marcados.
O Real de José Mourinho, por sua vez, não começou mal: venceu cinco dos sete jogos, mas perdeu para Real Betis e Atlético de Madrid, e já está seis pontos atrás do rival. A comparação não explica tudo, evidentemente. Mas ela expõe uma questão impossível ignorar: desde a saída de Toni Kroos, em 2024, o Madrid procura uma maneira de reconstruir a figura do meio-campista capaz de organizar o jogo desde trás.
Mourinho recebeu um elenco com Aurélien Tchouaméni, Federico Valverde, Eduardo Camavinga, Jude Bellingham, Arda Güler e, agora, Bernardo Silva, mas nenhum deles desempenha exatamente a função que Rodri poderia exercer.
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O Real Madrid tentou contratar o jogador que faltava e o perdeu para o Barcelona
A disputa por Rodri não foi uma história de mercado em que o Real simplesmente deixou de se interessar pelo espanhol. O clube foi atrás dele primeiro e chegou a avançar nas conversas com o Manchester City. O Barcelona entrou na disputa durante a Copa do Mundo e conseguiu virar o cenário, até convencer o jogador de que o projeto esportivo de Hansi Flick oferecia um caminho mais interessante.
A escolha é curiosa porque Rodri é madrilenho e passou pelas categorias de base do Atlético de Madrid, o que tornava sua ida simbólica. Rodri revelou posteriormente que ligou para o português para agradecer pelo interesse e pelo tratamento recebido. “Dizer não ao Madrid não é fácil”, afirmou ao “Mundo Deportivo”, explicando que escolheu o Barcelona por critérios esportivos e pela percepção de onde poderia ganhar e evoluir mais.
Mourinho, por outro lado, tentou minimizar a perda. Em agosto, afirmou que Rodri “não faria falta” porque o elenco tinha soluções suficientes. É uma declaração compreensível para um treinador que precisava começar a temporada sem seu principal alvo. O problema é que o desempenho levantou a dúvida: se existem soluções, por que nenhuma delas consegue oferecer aquilo que Rodri oferece?
O Real contratou Bernardo Silva, um jogador inteligente e capaz de controlar o jogo através da posse. Mas Bernardo é um meio-campista de circulação, condução e associação, não um organizador que funciona como ponto de referência diante da defesa. Arda Güler tem características ainda mais ofensivas. Valverde oferece intensidade, condução e cobertura, e Tchouaméni pode proteger a defesa e participar da saída, mas não possui a mesma capacidade de controlar sozinho o ritmo de uma partida.
O elenco tem qualidade. O que falta é uma peça com a combinação específica de atributos de Rodri.
Rodri daria a Mourinho que o Real ainda não encontrou
O melhor exemplo apareceu no próprio clássico de Madri. Mourinho escalou Tchouaméni e Valverde como dupla de meio-campo, com Arda Güler mais à frente, Bellingham entre linhas e Vini Jr. e Mbappé formando a frente de ataque. É uma estrutura coerente para potencializar jogadores ofensivos, mas que depende muito da capacidade dos dois volantes de sustentar a circulação e proteger a equipe. O Atlético venceu por 2 a 1, teve 61% de posse, finalizou 18 vezes e produziu 2,39 gols esperados (xG), contra apenas 0,30 do Real.
Rodri não resolveria todos esses problemas, mas ofereceria a Mourinho uma ferramenta que hoje o treinador não tem: um jogador capaz de ser simultaneamente a primeira saída, o ponto de apoio da posse e a proteção diante da defesa.
Isso teria consequências diretas para Bellingham. Em vez de precisar participar tanto da construção, o inglês poderia permanecer mais próximo da área, onde sua chegada e sua capacidade de atacar espaços são mais perigosas. Valverde também poderia receber uma função mais agressiva, aproveitando sua capacidade de percorrer grandes distâncias sem carregar sozinho a responsabilidade de organizar o jogo. Até Tchouaméni teria seu papel mais claramente definido: proteger a defesa e competir pela posição, em vez de ser obrigado a funcionar como o principal ponto de saída.
A ironia para Mourinho é que o jogador que poderia solucionar esse problema está fazendo exatamente isso no maior rival. Em pouco tempo, Rodri começou a funcionar como um ponto de equilíbrio da equipe ao lado de Pedri. E os números ajudam a entender sua influência.
Na vitória por 3 a 1 sobre o Sevilla, por exemplo, Rodri completou 67 de 74 passes, participou da construção do lance do terceiro gol e ainda apareceu defensivamente para cortar uma oportunidade perigosa. Contra o Levante, havia acertado 113 passes em 118 tentativas.
Com Rodri em campo, Pedri pode receber mais adiante e girar em zonas onde sua criatividade é maior, Lamine Yamal e Raphinha podem permanecer altos e agressivos e os laterais podem avançar sabendo que existe um jogador atrás da capaz de controlar a segunda bola. Rodri não precisa ser o protagonista de todas as ações para ser central ao funcionamento da equipe.
O resultado coletivo é difícil de ignorar. O Barcelona tem o melhor início de temporada da Europa com sobras. O Real Madrid, em contraste, parece depender mais frequentemente da qualidade individual para resolver partidas. O time possui Mbappé, Vinícius, Bellingham, Arda e uma série de jogadores capazes de produzir lances decisivos, mas ainda procura uma maneira consistente de controlar o jogo quando não consegue acelerar.
A derrota para o Betis por 1 a 0 e o clássico contra o Atlético são exemplos diferentes do mesmo problema: quando o adversário consegue impedir que o Madrid transforme talento em domínio territorial, a equipe encontra dificuldades para assumir o controle da partida.
O problema de Mourinho é ter perdido Rodri e não ter encontrado quem fizesse seu papel
O Real Madrid não precisava necessariamente contratar Rodri. Precisava encontrar uma solução para a função que Rodri exerce. Não existe garantia de que o espanhol, aos 30 anos, chegaria ao Bernabéu e reproduziria exatamente o que está fazendo no Barcelona. O problema é que o Madrid não parece ter buscado uma alternativa funcional ao jogador.
Em vez disso, acumulou peças de características diferentes e passou a tentar montar o meio-campo a partir delas. Bernardo pode ajudar a resolver parte da questão. Camavinga pode acrescentar condução e capacidade de escapar da pressão. Mas cada um deles resolve uma parte do problema, enquanto Rodri poderia alterar a maneira como todas essas peças se relacionam.
Talvez seja essa a razão pela qual a contratação continue doendo tanto em Madri. Não porque o Barcelona tenha simplesmente tirado um craque do rival, mas porque o Real Madrid passou dois anos procurando uma resposta para o vazio deixado por Kroos e Modric — e quando finalmente encontrou no mercado um jogador capaz de atacar diretamente esse problema, perdeu a disputa para o Barcelona.