Produto da Resex do Lago do Cuniã reúne tradição, manejo sustentável e geração de renda para comunidades locais
Filho de seringueiro e soldado da borracha, Carlos Santos aprendeu ainda criança que carne de jacaré podia virar muito mais do que um prato à mesa. Viu o pai caçar, tratar e preparar a carne e, com o tempo, aprendeu receitas que vão do assado ao bolinho e até estrogonofe.
Décadas depois, Carlos encontrou na Agrotec um pedaço dessa história sendo apresentado a quem nunca havia experimentado a iguaria.
“Eu sei fazer de tudo com carne de jacaré. Tem que saber manejar para ficar bom. É uma carne deliciosa e esse momento é importante para que todos possam conhecer. Precisamos dessa identidade amazônica do nosso jacaré”.
Da tradição ao reconhecimento
A programação desta quinta-feira (27) marcou mais um passo para a construção da Indicação Geográfica (IG) da carne de jacaré do Cuniã, iniciativa que reúne Prefeitura de Porto Velho, Sebrae, ICMBio e organizações da comunidade.
O secretário-adjunto da Semtel e historiador Aleks Palitot explica que o reconhecimento busca associar o produto não apenas ao território, mas também à história das populações tradicionais e ao manejo sustentável.
“A pessoa quer experimentar essa carne, mas também quer conhecer a história do lugar de onde ela vem, a vida das populações tradicionais, sua relação com a natureza e com a sustentabilidade. Isso cria identidade e valor para o produto”.
Manejo que também conta histórias
Para Erlan Alves Lopes, diretor do Departamento de Agricultura, o avanço da cadeia produtiva tem ainda um significado pessoal. Um primo dele morreu após um ataque de jacaré em 2006, episódio que o levou a estudar o tema e participar das discussões relacionadas ao manejo.
“Isso significa muito para mim. Eu chego a me arrepiar. A gente começou a estudar a cadeia produtiva e hoje queremos construir uma memória saudável da carne do jacaré e do manejo sustentável”.
Na Resex do Lago do Cuniã, o trabalho segue regras específicas. Ronaldo Rodrigues, presidente da Cooperativa do Cuniã, explica que os animais são capturados à noite e passam por medição para verificar se atendem aos critérios estabelecidos para o manejo. Depois, carne e couro seguem para aproveitamento e comercialização.
Da Amazônia para a mesa
E na Agrotec teve também quem comprovasse o resultado no prato. Evellyn Peixoto, analista técnica do Sebrae, já conhecia a carne e aproveitou a feira para experimentar novamente.
“Eu sugiro que todos experimentem e deem esse primeiro passo sem preconceito. A textura lembra alimentos que as pessoas já conhecem, como o frango, mas os nossos temperos amazônicos trazem um diferencial ao sabor”.
Para o prefeito Léo Moraes, valorizar produtos ligados à identidade de Porto Velho também significa criar novas possibilidades para as comunidades tradicionais.
“Temos uma riqueza que é nossa, construída pela história e pela relação das comunidades com a Amazônia. Valorizar essa identidade, com responsabilidade e sustentabilidade, é também gerar oportunidades e fazer com que Porto Velho seja reconhecida pelo que tem de único”.
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