Adicione nosso site às suas fontes preferidas para acompanhar nossas notícias. 📰
Estêvão vive uma contradição difícil de ignorar. Aos 19 anos, é um dos grandes talentos da nova geração mundial, é importante na seleção brasileira e nome certo com Carlo Ancelotti. No Chelsea, porém, sua participação na temporada é quase residual. Nem mesmo a Copa da Liga Inglesa, competição tradicionalmente utilizada para dar minutos a jogadores reservas, garantiu ao ex-Palmeiras alguma sequência.
A situação ficou ainda mais evidente na eliminação dos Blues para o Liverpool, na quarta-feira (28). Com Cole Palmer suspenso e João Pedro lesionado, havia espaço para imaginar uma oportunidade ao brasileiro. Xabi Alonso, entretanto, não o utilizou, apesar de Estêvão estar no banco e ter aquecido durante a partida. A escolha provocou questionamentos sobre o papel do atacante no projeto do treinador espanhol.
Os números dão dimensão à contradição. Até a partida contra o Liverpool, Estêvão havia acumulado 197 minutos pelo Chelsea na temporada. Na última Data Fifa, foram 172 minutos em três jogos pela Seleção Brasileira. O cenário não significa que Estêvão deva receber uma vaga automática entre os titulares, mas existe uma diferença entre administrar o desenvolvimento de um jovem e deixá-lo sem oportunidades suficientes para mostrar o que pode oferecer.
Estêvão está certo em estar incomodado no Chelsea? Avaliamos
Um talento que a Seleção aproveita, mas o Chelsea mal utiliza
A diferença de tratamento entre clube e seleção chama atenção porque Estêvão já demonstrou que pode produzir em um nível elevado. Na primeira convocação de Ancelotti após a Copa do Mundo, o atacante participou dos três compromissos do Brasil contra Austrália e Índia. Começou duas partidas e, no amistoso contra a Índia, marcou um gol e deu uma assistência na vitória por 4 a 0.
O desempenho internacional reforça que Estêvão não é apenas uma promessa que ainda precisa provar seu valor no futebol. Ele tem capacidade de desequilibrar no um contra um e consegue finalizar com precisão quando parte da direita para dentro. Foi justamente esse repertório que chamou a atenção do Chelsea quando o clube acertou sua contratação junto ao Palmeiras.
Na Inglaterra, o brasileiro também já teve momentos de destaque. Sua primeira temporada mostrou que ele pode contribuir mesmo em um contexto de adaptação, com participação em jogos importantes e capacidade de produzir lances decisivos.
O problema é que, com a chegada de Xabi Alonso, a progressão perdeu força.
Na Premier League, Estêvão ainda não foi titular sob o comando do espanhol e suas entradas aconteceram majoritariamente nos minutos finais. O atacante chegou a ficar sem sair do banco em compromissos nos quais poderia ter recebido uma oportunidade, e a eliminação para o Liverpool ampliou a sensação de que está no fim da fila.
A comparação com a Seleção não deve ser interpretada de forma simplista. Ancelotti e Xabi trabalham em contextos diferentes, com companheiros, adversários e necessidades táticas distintos. Além disso, a seleção brasileira tem uma janela de preparação muito curta, enquanto o Chelsea precisa administrar uma temporada inteira. Ainda assim, a diferença de minutagem levanta dúvida.
A situação também precisa ser observada pelo prisma do desenvolvimento. Um atacante jovem precisa de mais do que treinamentos de alto nível: precisa jogar, errar, tomar decisões sob pressão e entender como suas características funcionam contra diferentes tipos de defesa. Entrar por cinco ou dez minutos, frequentemente com a equipe em desvantagem, não oferece as mesmas condições para evoluir que uma sequência de partidas.
A posição de Estêvão e a concorrência explicam parte do problema
A chegada de Xabi Alonso mudou a hierarquia ofensiva do Chelsea. Pedro Neto tem sido uma opção recorrente pela direita, enquanto Cole Palmer e Morgan Rogers têm espaços centrais. João Pedro também oferece mobilidade e capacidade de participar da construção, mas é o camisa 9. O treinador encontrou combinações que considera mais confiáveis para manter o funcionamento coletivo.
Pedro Neto, em particular, oferece intensidade sem a bola e disposição para cumprir tarefas defensivas. Essas características são importantes para um treinador que deseja pressionar alto e manter a equipe compacta. Estêvão, por sua vez, ainda está aprendendo a executar as exigências físicas e táticas do espanhol. O brasileiro tem qualidade para decidir, mas isso não significa que já esteja pronto para assumir qualquer função em um sistema exigente.
Há também uma questão de posicionamento. Estêvão prefere atuar mais por dentro, como meia-atacante, com liberdade para receber entre as linhas, em vez de ser utilizado como ala. Pela direita, Estêvão gosta de receber aberto, partir para cima do marcador e buscar o pé esquerdo para finalizar ou encontrar um passe decisivo — não ser o total responsável pelo lado do campo, ofensiva e defensivamente.
Isso não significa que o brasileiro não possa aprender a atuar em outras funções. Aos 19 anos, ainda tem muito a desenvolver sem a bola e pode ampliar seu repertório tático. Mas a adaptação precisa ser acompanhada de oportunidades reais. Se o Chelsea acredita que Estêvão pode evoluir para uma função mais completa, deixá-lo no banco por longos períodos dificilmente será a melhor maneira de acelerar esse processo.
Xabi precisa encontrar espaço para Estêvão antes que o banco vire rotina
A declaração de Xabi após a eliminação para o Liverpool foi reveladora. O treinador reconheceu que Estêvão poderia estar mais feliz com sua situação e afirmou que o brasileiro terá oportunidades ao longo da temporada. Também destacou a intensidade do futebol inglês e a necessidade de o atacante estar preparado fisicamente.
É uma justificativa compreensível, mas que perde força quando o jogador permanece fora até em circunstâncias favoráveis. Contra o Liverpool, Palmer estava suspenso. O Chelsea ainda tinha alternativas, mas a ausência de Estêvão mostrou que, neste momento, a confiança de Xabi nele está abaixo daquilo que se esperava quando o clube investiu em sua contratação.
A eliminação da Copa da Liga torna a situação mais urgente.
Com menos oportunidades em uma competição que poderia servir para rodar o elenco, o brasileiro depende agora de entradas na Premier League e de eventuais mudanças na equipe titular. A sequência de partidas e a necessidade de administrar o desgaste podem abrir espaço, mas não há garantia de que isso acontecerá.
O Chelsea não precisa transformar Estêvão imediatamente em titular absoluto. Pode começar oferecendo entradas mais longas, utilizá-lo em partidas nas quais sua capacidade de drible seja uma vantagem e testar sua participação por dentro, sem exigir que abandone a posição em que se sente mais confortável.
O que não parece razoável é tratar um dos talentos mais promissores de sua geração como uma opção circunstancial. O clube investiu para contar com Estêvão justamente porque enxergou nele um potencial de alto nível. Esse potencial não desapareceu porque o treinador prefere outros jogadores neste momento.
A situação exige paciência, mas paciência não pode significar inércia. Estêvão precisa evoluir fisicamente, ampliar seu repertório tático e conquistar a confiança de Xabi Alonso. O treinador, por sua vez, precisa criar condições para avaliar o brasileiro em campo, não apenas nos treinamentos ou em aparições breves nos minutos finais.